Dor não implica sofrimento

A afirmação do título pode parecer absurda à primeira vista. Inicialmente dor e sofrimento parecem sinônimos, mas imagine o seguinte cenário: 

Você acorda um dia se sentindo inspirado e decide que vai começar a se exercitar. Você contrata um personal trainer, faz a inscrição na academia e faz o seu primeiro treino. No dia seguinte você acorda com dores em todos os músculos que você usou no dia anterior, mas com uma sensação de dever cumprido e satisfação. Nesse caso existe dor, mas não existe sofrimento. 

Agora imagine que você acorde um dia pela manhã com dores misteriosas em todos os músculos, sem motivo aparente. Nesse caso a dor pode vir acompanhada de uma sensação de insegurança e um sofrimento intenso. 

Ou seja, a presença da dor por si só não implica necessariamente em um estado mental aflitivo. 

Aqui eu uso a palavra dor não só para descrever uma dor física, mas também uma dor emocional, como raiva, culpa ou medo. 

A vida é uma sequência interminável de prazer e dor. Prazer e dor se alternam sem parar na consciência e são codependentes, um nasce no fim do outro e precisa do outro como forma de contraste. Nós nunca vamos conseguir escapar dessa dança. Já o sofrimento não está relacionado com prazer e dor, mas sim com resistência.

O sofrimento é uma amplificação e uma perpetuação da dor que nasce de uma argumentação interna contra essa mesma dor. É uma insistência da mente em não permitir a existência da dor na consciência (a consciência é tudo aquilo que nós conseguimos perceber). É uma tentativa malsucedida de empurrar um desconforto – na forma de dor física ou emocional – para fora da nossa percepção. 

O problema é que quanto mais nós tentamos nos livrar de algum desconforto presente na nossa consciência, mais ele cresce. 

Você se lembra quando estava interessado(a) naquela pessoa, mas ela estava fora do seu alcance, e você decidiu que não ia mais pensar nela, mas quanto mais você tentava e se esforçava para esquecer essa pessoa, mais presente ela se tornava na sua consciência? Pois é, com as nossas dores e emoções negativas é a mesma coisa: quanto mais nós tentamos fugir delas, mais elas se amplificam. 

Como resolver esse problema? Existem duas abordagens: 

1 – Olhe o monstro nos olhos

Nós fugimos daquilo que tememos. E nós tememos aquilo que não compreendemos. A solução para isso é parar de fugir e encarar o que nos persegue de frente, por mais desconfortável que isso seja inicialmente. 

Está sentindo uma dor de cabeça que parece não ter solução? Ao invés de tentar encontrar uma saída, mergulhe diretamente na dor. Coloque a sua atenção na sensação da dor e veja como ela é de verdade. Isso vai amplificar a dor inicialmente, mas também vai te deixar familiarizado com aquela sensação. 

Está sentindo raiva e não consegue se acalmar? Coloque sua atenção diretamente na sensação corporal que ela provoca. Veja como ela se movimenta, de quais pensamentos ela se alimenta, como ela aumenta e diminui, que tipo de tensão ela provoca no seu corpo. Fique tão familiarizado com essa sensação, mas tão familiarizado, que da próxima vez que ela aparecer, vai ser como um velho conhecido chegando na sua casa. 

Isso vale para tudo: pensamentos, sensações e emoções. Conheça a fundo todos eles, especialmente aqueles que você foge ou nega. 

Veja: o sofrimento nasce da resistência, a resistência nasce do medo, o medo nasce do desconhecido, daquilo que não é familiar. 

Conhecer os fenômenos da nossa mente é como abrir um grande espaço onde todas as sensações, pensamentos e emoções positivas e negativas podem coexistir em paz. Quando todos esses fenômenos coexistem em paz, não existe mais tensão, não existe mais resistência e uma tentativa de fugir, e assim, o nosso sofrimento vai ser dramaticamente reduzido. 

A segunda abordagem é:

2 – Encontre algo maior

O ser humano consegue suportar uma quantidade absurda de dor sem sofrer, desde que ele tenha significado e propósito em conjunto com aquela dor. 

Significado é um objetivo claro, um direcionamento fixo como uma rocha. Um grande significado vai manter a nossa atenção naquilo que realmente importa e vai deixar a dor em segundo plano. 

Quando nós analisamos a jornada dos personagens dos filmes, séries e livros de que gostamos, nós vamos perceber que o momento de maior sofrimento do herói não é quando a dor é mais intensa, mas sim quando o significado da jornada é retirado, quando o herói perde o propósito da jornada, quando ele não vê mais razão para continuar. Esse é o momento da escuridão, em que o herói fica deprimido e sofre mais intensamente, pois agora, tudo o que resta na consciência são as dores do corpo e da alma.  

A noite escura da alma de qualquer pessoa não é provocada por um desconforto qualquer, físico ou psicológico, mas sim pela perda da motivação, pela perda do caminho e do sentido de vida. 

Como um grande propósito destrói o sofrimento?  

Um grande significado e um objetivo claro vai manter a nossa atenção fixa em um ponto específico e todo o resto vai parecer secundário. Dessa maneira, o sofrimento não tem energia na forma de resistência pra se perpetuar. O medo é colocado em segundo plano e é obscurecido pela grandeza do objetivo último. Não existe mais espaço na nossa consciência para as insignificantes dores físicas e emocionais que aparecem pelo caminho.  

A questão é que muitas vezes o medo é tão grande que acaba por tomar o lugar do propósito na consciência e o sofrimento retorna. É por isso que a abordagem número 1 de olhar o monstro nos olhos é sempre o primeiro passo. 

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