Como a meditação me salvou – 3 habilidades básicas

Em 2015 eu estava com um problema sério. Eu sentia dores crônicas em várias partes do corpo e meu estresse chegou em um nível tão elevado que eu simplesmente não conseguia mais dormir. Minha mente ficava presa em um estado de alerta, girando sem parar entre pensamentos, tentando encontrar uma saída para os meus problemas de saúde. Os médicos me ajudaram na medida do possível, mas depois de alguns meses naquela situação, estava claro que eu precisava aprender a relaxar um pouco. Eu precisava, no mínimo, conseguir dormir, mesmo que eu não conseguisse me livrar da dor. 

Nesse mesmo ano eu me sentei para meditar pela primeira vez e foi o primeiro passo de uma revolução na minha vida. Um ano depois eu era uma pessoa diferente. 

Ao contrário do que as pessoas imaginam, a prática da meditação não precisa estar ligada necessariamente à espiritualidade. Se você não se sentir confortável com esse termo (assim como eu não me sentia no início), praticar meditação pode ser simplesmente um exercício prático, como ir à academia. É um exercício para o nosso cérebro, da mesma forma que a atividade física é um exercício para o nosso corpo. Com o tempo e a prática, me parece inevitável que a meditação leve ao desenvolvimento de uma parte “espiritual” no nosso cérebro, mas isso eu deixo para vocês descobrirem.

Como a meditação me ajudou a sair daquela situação? Eu desenvolvi 3 habilidades básicas:

1- Eu parei de resistir 

Uma coisa é a dor, outra coisa é o sofrimento. Com o tempo eu percebi que minha dor, por mais intensa que fosse, era perfeitamente aceitável. O que realmente me fazia miserável era a minha resistência àquela dor. Quanto mais eu resistia, mais eu multiplicava o potencial destrutivo daquela dor. O famoso psicoterapeuta Carl Jung já dizia: “O que você resiste, persiste”. 

Apesar da relação entre sofrimento e resistência ser muito subjetiva para uma fórmula matemática, existe uma equação que nos permite visualizar essa relação com clareza suficiente: Sofrimento = Dor x Resistência

Com o tempo e a prática eu pude desenvolver uma relação de aceitação com a minha dor. Eu deixava ela existir e ela me deixava ter uma vida normal. 

Não resistir é aceitar a realidade no momento presente, é não argumentar mentalmente contra algo que já existe e não pode ser modificado imediatamente. Não resistir é parar de nadar contra a correnteza da vida, é trabalhar com aquilo que está aqui e agora.

A meditação vai te mostrar claramente esses mecanismos de resistência. Com a meditação nós passamos a enxergar a diferença entre dor pura e simples e dor com resistência e sofrimento. 

A nossa mente é incrível. Quando ela identifica um problema com clareza e encontra o caminho para uma solução, ela imediatamente começa a se ajustar sozinha para resolver o problema. Pode demorar para o nosso cérebro fazer as mudanças necessárias, mas a boa notícia é que isso vai acontecer naturalmente e sem esforço, basta enxergar com clareza esses mecanismos e ter paciência. O nosso cérebro vai ter que promover mudanças estruturais, e isso leva tempo. O importante é continuar meditando e observando. 

A simples observação da mente através da meditação leva às mudanças, nada mais é necessário. Muitas pessoas tentam forçar a mente a promover mudanças, sem perceber que isso é mais uma forma de resistência. 

2- Eu parei de reagir a qualquer estímulo 

Ficar parado é uma das coisas mais difíceis de se fazer.

Eu vou ser honesto com vocês, meditação não é um passeio no parque. O modo de operação padrão da nossa mente é um modo reativo. Você sente uma coceira e coça, você sente fome e come, você sente dor por estar sentado e se levanta, você sente frio e se cobre. Para meditar nós temos que ir contra o impulso natural da mente de procurar alívio imediato de qualquer desconforto. Surpreendentemente, não fazer nada é muito mais difícil do que fazer várias coisas ao mesmo tempo. 

Não tem problema algum comer quando estamos com fome ou nos cobrir quando estamos com frio, o problema é que essa tendência reativa da mente também faz você fumar um cigarro quando está com vontade, faz você comer em excesso, usar drogas, brigar com a esposa e faltar ao trabalho. 

A meditação me ensinou a observar essas tendências sem reagir. Inclusive a tendência de reagir a emoções negativas, como xingar alguém no trânsito ou ficar paralisado de medo antes de pedir um aumento para o chefe. 

A parte do nosso cérebro que resiste a impulsos é como um músculo. A meditação é a ferramenta ideal para desenvolver esse músculo.

3- Eu comecei a perceber mais coisas 

O primeiro passo para resolver qualquer problema é identificar com clareza esse problema. 

Nossa mente é muito mais complexa do que nós imaginamos. Ela não tem só os pensamentos e sensações conscientes, mas também fenômenos inconscientes. A meditação vai trazer muitos desses fenômenos para a consciência, onde eles podem ser identificados e trabalhados. 

Não adianta nós tentarmos resolver algo se nós nem sabemos as causas daquele problema.  

Como eu disse anteriormente, muitas vezes a única coisa que você precisa fazer para resolver uma situação é ter uma visão clara do que está acontecendo. 

A meditação ampliou a minha capacidade de percepção. É como se antes eu tivesse acesso a uma pequena quantidade de pensamentos, emoções, sensações e imagens, e depois de anos meditando, eu tenho acesso a uma quantidade muito maior desses fenômenos. Isso faz com que eu seja capaz de identificar problemas com muito mais clareza e rapidez, e depois eu espero a minha mente se ajustar e encontrar uma solução sem esforço.

Em outras palavras: a meditação vai aumentar a nossa capacidade de aceitar as coisas, diminuindo o nosso sofrimento. Vai aumentar a nossa capacidade de resistir a impulsos prejudiciais. E vai aumentar a nossa capacidade de identificar e resolver problemas internos. 

Essas 3 habilidades combinadas me salvaram da vida miserável que eu estava vivendo. Eu percebi que o problema não era a minha dor, mas sim a minha resistência a ela. A minha tentativa desesperada de me livrar da dor a qualquer custo estava me levando ao limite da ansiedade. Ao meditar, eu aprendi a controlar meu impulso de procurar alívio imediato de qualquer desconforto e percebi que eu tinha capacidade de sobra para permitir que a dor existisse. Com o tempo a minha ansiedade diminuiu e eu pude voltar a dormir. Além disso, 3 anos depois das minhas dores aparecerem, elas diminuíram a ponto de quase desaparecerem, mas nessa altura eu já não estava desesperado para me livrar delas. Elas haviam se tornado velhas companheiras. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s