Emoções: é aqui que o ouro está

Em primeiro lugar é preciso dizer que não existe uma ciência exata das emoções e nunca vai existir, por um simples motivo: As emoções são experiências diretas, em primeira pessoa, ou seja, a única pessoa que pode de fato compreender as emoções é quem as sente. Elas não são um objeto que pode ser observado por terceiros. Se eu digo que estou feliz ou com medo, a única pessoa que pode saber de fato se isso é verdade sou eu mesmo. O que é felicidade e medo para mim, pode não significar a mesma coisa para você. 

Dito isso, é perfeitamente possível entender esse fenômeno em primeira pessoa. Neste artigo eu vou propor um modelo baseado na minha própria experiência ao longo de mais de 3 anos de prática com a meditação e que pode ser testado por qualquer pessoa que tenha curiosidade. 

1 – Compreendendo a nossa experiência direta 

Se você prestar atenção, você vai perceber que existem basicamente 4 fenômenos que compõem a nossa realidade quando a observamos em primeira pessoa: pensamentos, emoções, imagens e sensações. 

Pensamentos: são as narrativas que ficam rodando na nossa mente sem parar. Usam a linguagem como sistema operacional. Essa frase que você está lendo nasceu em mim primeiro como pensamento antes de se transformar em palavras escritas em um blog.

Emoções: são um tipo de energia mental e corporal. Podem gerar desconforto em locais do corpo como peito e abdômen. São difíceis de serem observadas isoladamente, pois estão sempre emaranhadas com os pensamentos. 

Imagens: são imagens visuais – quando nossos olhos transformam luz em informação e nosso cérebro transforma essas informações em imagens. Ou imagens mentais, quando nosso cérebro simplesmente gera essas imagens sem um input – como quando nós lembramos de uma cena passada ou imaginamos uma cena futura. 

Sensações: som, tato, paladar, dor física, coceiras, entre outros. 

Tudo o que você puder observar na sua experiência direta da realidade vai se encaixar dentro desses 4 grupos. É como se esses fenômenos fossem os blocos de construção de tudo o que nós vivemos. Eles são a matéria prima da nossa mente. 

Mas existe ainda um outro elemento, que é diferente desses 4 fenômenos, esse elemento é a nossa atenção consciente. A atenção consciente é o nosso foco, é a nossa percepção. É como se a atenção fosse um holofote que ilumina um determinado fenômeno e torna aquele fenômeno consciente, ou seja, tudo o que nós percebemos – qualquer emoção, sensação, imagem ou pensamento – nós percebemos através da nossa atenção. 

Exemplificando: vamos supor que em um determinado momento você esteja, ao mesmo tempo, com calor, pensando no seu trabalho e escutando um pássaro cantando. O calor, o som do pássaro e o pensamento são os fenômenos presentes na sua consciência, ou seja, é o que está disponível nesse momento para que você perceba. A atenção consciente é como uma lupa que você pode colocar sobre qualquer um desses três fenômenos. Se você colocá-la sobre a sensação de calor, essa sensação vai tomar a maior parte da sua consciência e o pensamento e o som do pássaro vão ficar em segundo plano, de forma que talvez você nem perceba que eles estejam ali. Se você colocar a atenção consciente sobre o som do pássaro, o pensamento sobre o trabalho e a sensação de calor vão praticamente desaparecer. Tudo isso acontece em fração de segundos e é preciso prática para perceber com clareza esses movimentos. 

2 – Observando as emoções 

Como eu disse anteriormente, observar as emoções isoladamente como energia corporal é difícil, porque geralmente quando nós temos uma emoção forte o suficiente para ser observada com clareza, ela vem acompanhada de pensamentos intensos sobre aquela emoção e que atrapalham a nossa capacidade de observá-la separadamente. Por exemplo, se você está com uma emoção forte durante uma briga de trânsito, é difícil parar e observar com calma, porque naquele momento sua mente está se preparando para atacar ou fugir. O mesmo vale para medo, culpa, entre outras.

Além disso, o desconforto intenso da emoção vai afastar a sua atenção consciente. Sua mente vai tentar focar em outras coisas e evitar aquele desconforto. 

Mas mesmo sendo difícil é perfeitamente possível colocar a nossa atenção sobre a emoção, por mais intensa que ela seja. 

Feito isso, nós podemos observar algumas coisas:  

As emoções são flutuantes e instáveis. Elas variam de intensidade rapidamente. Elas aumentam, diminuem e passam de um local do corpo para outro. Elas geralmente ficam concentradas entre os genitais e a cabeça, especialmente no abdômen e no peito. No meu caso, se eu fosse descrever como um objeto, eu diria que é como uma fogueira localizada na parte da frente da espinha dorsal e mais concentrada no peito. 

As emoções observadas isoladamente parecem ter as mesmas propriedades. Isso foi uma constatação chocante para mim. Todas as emoções quando observadas sem os pensamentos, são iguais. Ou seja, os pensamentos é que vão diferenciar as emoções. 

Energia emocional + pensamentos de medo = medo

Energia emocional + pensamento de raiva = raiva 

Energia emocional + pensamentos de culpa = culpa 

Quando eu digo: “eu estou sentindo medo”, na verdade eu quero dizer que naquele momento eu tenho a emoção – a fogueira no meu corpo – acompanhada de pensamentos de medo. Se eu tenho apenas os pensamentos de medo, sem a emoção, não existe o que nós chamamos de medo. Se eu tenho a energia emocional, sem os pensamentos de medo, também não existe o que chamamos de medo. 

E agora mais uma constatação chocante: a mesma energia emocional, se acompanhada de pensamentos positivos de excitação, se transforma no que nós chamamos de alegria. 

Energia emocional + pensamentos positivos = alegria 

3 – Tentando alterar as emoções 

Ok. Agora que nós entendemos tudo isso e de preferência observamos isso na prática através da meditação, vem uma outra constatação, não tão legal: 

Nós não controlamos os pensamentos e por isso não controlamos as emoções. Nós sabemos que pra alterar uma emoção, basta nós alterarmos os pensamentos associados à energia emocional, mas quando nós tentamos alterar os nossos pensamentos, para transformar emoções ditas “negativas” em emoções “positivas” nós só conseguimos fingir que estamos pensando positivamentenós não conseguimos efetivamente trocar pensamentos negativos por pensamentos positivos usando força de vontade.  

Tente você mesmo: na próxima vez que alguém te agredir verbalmente, tente pegar todos os seus pensamentos de ódio em relação àquela pessoa e os transformar imediatamente em pensamentos de amor e carinho. 

Isso quer dizer que é impossível alterar os nossos padrões de pensamento e consequentemente os nossos padrões emocionais? 

Não. É perfeitamente possível alterar os nossos padrões emocionais. Existem duas abordagens que funcionaram muito bem para mim ao longo dos anos, mas ambas são abordagens de longo prazo. 

Uma abordagem é baseada na inclusão e aceitação das emoções negativas, que eu já tratei brevemente aqui no blog, e a outra abordagem é baseada na alteração de crenças básicas, que são a fonte dos pensamentos. Ao longo do tempo eu vou tratar de todos esses assuntos aqui no blog e vários outros relacionados ao tema da meditação e observação da mente. 

Se você se conhece, o resto da sua vida é simples. 

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